terça-feira, 2 de setembro de 2008

“Essa falta triste requer tutela, ensimesmamento e inércia” ***.

Fechado em seu quarto, sombrio, tenso, vazio. Agarra no peito sua camisa, aperta os olhos. Verte angustia, pois lágrimas lhe faltam. Deseja gritar, mas o silêncio abafa seu grito. Na sala a comissão julgadora o aguarda para o jantar.
Chega em casa sempre as dezenove horas. Antes de entrar... não entra. Espera, desfaz o nó da gravata, sente a pressão sanguínea de seu corpo cair, expira o ar cadavérico de fora, entra e inspira o ar da sala: ar novo! O mesmo perfume de ontem.
Não costuma sair de casa. A não ser quando lhe falta açúcar para o doce. Confia no entregador de angustias que lhe traz as receitas via “JaNela”. E assim durante o preparo do jantar ela é assim: “Mais Você”.
A família reúne-se para o jantar. Ouve-se a TV, a comida e um cão latindo.

***BAPTISTA, L.A. (1999) “A solidão e a inércia dos discursos psi”. In: A cidade dos sábios. SP: Summus, p.35

terça-feira, 29 de julho de 2008

“TRÊS PONTOS SOBRE A VIDA”

CAPITULO I

É quase de manhã e o relógio reluta em tocar por medo de ser estraçalhado contra a parede do quarto do Sr. R.

Mas o tempo é uma panela de pressão, pronta a estourar a cada pedaço de tempo que passa. O tempo devora o amanha insaciavelmente dando vida ao que quer destruir. O tempo, cruel inimigo dos ansiosos contemporâneos, dilata a vida pra que nela se perceba a morte.

O relógio tenta deter suas engrenagens como alguém que tenta suicídio prendendo a respiração. O medo de seu fim próximo o coloca em um jogo aonde ter a posse e o controle de sua vida é poder acabar com ela por si próprio. Diante te tal falsa escolha, a natureza imposta ao relógio o condena a um fracasso inevitável: aos prantos, um assovio, um lamento clamando por sua vida, e seu ofício de contá-la.

Sr. R. estala os olhos e as veias e artérias que irrigam sua retina, e solta um rugido semelhante a de um urso encomodado em seu período de hibernação:

“Grrrrroooooaaaaaarrrrr”

(...)

As carcaças que se acumulam sobre o chão do quarto do Sr. R. ganham um novo visinho que ainda agoniza enquanto é devorado por seu amor, seu oficio, sua razão de estar e ser, o abutre que arranha sua face lisa e jovial. O tempo aquele que prolonga a vida para que nela se perceba a morte. Devora o relógio diante de seu inquisidor Sr. R. que saliva como o cão de Pavlov ao escutar a sirene.